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Psicóloga Ana Carolina Pereira em Curitiba especializada em saúde mental no trabalho, consultoria de carreira e desenvolvimento humano.

Gestão do tempo no trabalho: o problema é você ou a forma como trabalhamos?

Sep 14
7 min read

Você abre a agenda pela manhã e encontra uma sequência de reuniões. Entre uma e outra, chegam mensagens, e-mails, notificações e pedidos “rapidinhos”. Quando finalmente surge um intervalo, já existe outra demanda esperando.


agenda cheia de reuniões refletindo sobre gestão do tempo, produtividade e organização do trabalho.
Fonte imagem: Virginia Marinova For Unsplash+

Autora: Ana Carolina Pereira

5 minutos (leitura rápida)


O dia termina. Você esteve ocupado durante horas, mas aquela tarefa que realmente exigia concentração continua ali.


Então vem uma conclusão bastante comum:


“preciso melhorar minha gestão do tempo.” 

Mas será que o problema é sempre esse?

Uma reportagem recente do Financial Times mostrou uma situação curiosa: profissionais estão criando reuniões fictícias no próprio calendário para bloquear horários e conseguir realizar o trabalho que precisa ser entregue.


Parece contraditório. E é justamente por isso que merece atenção.

Se alguém precisa fingir que está em uma reunião para encontrar tempo para trabalhar, talvez a discussão sobre gestão do tempo no trabalho precise ir além de agendas, listas de tarefas e técnicas de produtividade.


Talvez seja necessário olhar também para a maneira como o trabalho está sendo organizado.



Gestão do tempo não é apenas uma responsabilidade individual.


Quando alguém diz que não consegue administrar o próprio tempo, rapidamente aparecem recomendações:


→ Organize sua agenda.
→ Defina prioridades.
→ Aprenda a dizer não.
→ Evite distrações,
→ Use uma técnica de produtividade.

Essas estratégias podem ajudar. O problema começa quando transformamos a gestão do tempo em uma responsabilidade exclusivamente individual.


Imagine um profissional que possui boas competências de organização e planejamento, mas passa grande parte do dia em reuniões, recebe solicitações simultâneas em diferentes canais e trabalha em uma cultura na qual todas as demandas parecem urgentes.


Quanto controle essa pessoa realmente possui sobre o próprio tempo? Essa pergunta é importante porque o desenvolvimento profissional não acontece isolado do ambiente.


A maneira como uma empresa organiza reuniões, estabelece prioridades, distribui responsabilidades e desenvolve suas lideranças também interfere na capacidade das pessoas de trabalhar com concentração.



Estar ocupado não significa necessariamente ser produtivo.



Existe uma diferença importante entre atividade e produtividade.


Uma agenda cheia pode transmitir a sensação de movimento. Mas quantidade de compromissos não significa necessariamente qualidade de entrega.


Dados divulgados pela Microsoft em seu Work Trend Index ajudam a compreender essa fragmentação:


8 por cento dos profissionais pesquisados afirmaram que seu trabalho parece caótico e fragmentado. Reuniões, mensagens e emails disputam continuamente períodos que poderiam ser destinados à concentração.

Em outras palavras, podemos passar o dia inteiro respondendo ao trabalho sem necessariamente conseguir avançar no trabalho que exige profundidade.




Quando a agenda começa a controlar o profissional.


Outro estudo, realizado com 632 profissionais de mais de 20 setores, encontrou uma diferença interessante entre intenção e comportamento.


Os participantes disseram que gostariam de recusar cerca de 31% dos convites para reuniões, mas efetivamente recusavam apenas 14%.


Por quê? Pois as razões podem envolver normas organizacionais, receio de parecer desinteressado, relações hierárquicas, necessidade de visibilidade e dificuldade para estabelecer limites. Por isso, antes de concluir que alguém simplesmente “não sabe dizer não”, vale perguntar: esse ambiente realmente permite que as pessoas digam não?




O excesso de reuniões pode afetar a saúde mental no trabalho?


Uma reunião isolada dificilmente é o problema. A questão está na combinação entre reuniões excessivas, interrupções constantes, demandas simultâneas, falta de autonomia e ausência de períodos de recuperação.


Quando esse padrão se torna cotidiano, o profissional pode terminar a jornada com a sensação de ter permanecido disponível o dia inteiro e, ainda assim, não ter conseguido concluir tarefas importantes.


Isso pode contribuir para experiências de estresse no trabalho, sobrecarga e dificuldade de desconexão. É justamente aqui que a discussão sobre gestão do tempo encontra outro tema fundamental: saúde mental no trabalho.



excesso de reuniões e pouco tempo disponível para trabalho focado e gestão do tempo.
Fonte imagem: Virginia Marinova por Unsplash+


Da fragmentação do tempo à sobrecarga.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Isso não significa que ter muitas reuniões provoque burnout automaticamente. A relação é muito mais complexa.


Mas significa que discutir Síndrome de Burnout, estresse e saúde emocional exige observar não apenas características individuais, mas também as condições nas quais o trabalho acontece.



O problema de transformar tudo em urgência.

Quando tudo é urgente, estabelecer prioridades se torna praticamente impossível.


Quando todos precisam estar disponíveis o tempo inteiro, períodos de concentração passam a parecer ausência.


Quando responder rapidamente se torna mais valorizado do que pensar profundamente, podemos criar uma cultura na qual parecer ocupado se torna mais importante do que produzir de maneira saudável e sustentável.


E isso nos leva a uma questão ainda maior.


trabalho focado como estratégia de produtividade, gestão do tempo e saúde mental no trabalho.
Fonte imagem: Virginia Marinova por Unsplash+


Que comportamento a cultura da empresa está recompensando?.

Organizações também ensinam comportamentos. Não apenas por meio de políticas formais, mas pelo que líderes valorizam, cobram, toleram e reconhecem no cotidiano.


Se alguém que protege duas horas para trabalhar é interpretado como indisponível, enquanto quem participa de todas as reuniões é percebido como comprometido, qual comportamento tende a ser reproduzido?


Essa reflexão faz parte tanto da gestão de pessoas quanto do desenvolvimento de liderança.



Pequenas mudanças também constroem uma vida diferente.


Existe uma reflexão frequentemente associada à filosofia budista que afirma que a vida que vivemos é consequência das escolhas que cultivamos repetidamente.


Independentemente da tradição filosófica, essa ideia encontra um paralelo interessante na psicologia: nossos comportamentos cotidianos moldam nossos hábitos, e nossos hábitos influenciam diretamente a forma como experimentamos a vida.


Se pequenas decisões podem construir o caos, elas também podem construir equilíbrio.


Porque, no fim, a saúde mental raramente é resultado de uma única grande decisão.

Ela costuma ser construída  ou protegida pelas pequenas escolhas que fazemos todos os dias.



Produtividade saudável exige espaço para trabalhar.

Talvez uma das mudanças mais importantes seja recuperar uma ideia aparentemente óbvia: trabalhar também exige tempo para trabalhar. Tempo para analisar, pensar, criar, tomar decisões e executar.


Uma agenda eficiente não deveria ser aquela que consegue ocupar todos os espaços disponíveis. Deveria ser aquela que protege espaço suficiente para aquilo que realmente importa.


E como melhorar a gestão do tempo no trabalho? Não existe uma única resposta porque diferentes funções e organizações possuem necessidades diferentes. Ainda assim, algumas perguntas podem ajudar profissionais e empresas a revisar a maneira como utilizam o tempo.


Para profissionais


Antes de buscar mais uma ferramenta de produtividade, observe sua rotina:


Quais atividades realmente exigem sua presença?
Quais reuniões poderiam ser substituídas por uma comunicação assíncrona?
Em quais momentos você consegue realizar trabalho focado?
Você consegue estabelecer prioridades ou passa o dia respondendo a urgências?
Existe espaço real para dizer “não” ou negociar prazos?

O objetivo não é controlar cada minuto do dia, mas desenvolver maior consciência sobre como o tempo está sendo utilizado.


Isso também faz parte do desenvolvimento profissional e da gestão de carreira: compreender prioridades, estabelecer limites, comunicar necessidades e tomar decisões mais conscientes sobre a própria forma de trabalhar.



Para líderes e empresas


Aqui, a pergunta precisa ser diferente. Em vez de apenas ensinar colaboradores a administrar melhor suas agendas, vale analisar se a própria organização está criando condições para isso.


Algumas possibilidades incluem revisar a quantidade e duração das reuniões, definir critérios mais claros para participação, proteger blocos de trabalho focados, estabelecer prioridades e reduzir a expectativa de disponibilidade permanente.


Também é importante desenvolver lideranças capazes de diferenciar a presença da contribuição. Uma pessoa não precisa estar em todas as conversas para demonstrar comprometimento.


Liderança e equipe organizando prioridades para melhorar gestão do tempo, produtividade e saúde mental no trabalho.
Fonte imagem: Virginia Marinova por Unsplash+


O problema é sua agenda?

Técnicas de gestão do tempo continuam sendo úteis.


Organizar prioridades, aprender a estabelecer limites e desenvolver competências de planejamento podem melhorar significativamente a rotina profissional. Mas existe um risco quando usamos essas ferramentas para tentar resolver individualmente problemas que também são organizacionais.


Uma pessoa pode aprender a organizar perfeitamente sua agenda e continuar inserida em uma cultura que fragmenta seu tempo.


Então, quanto controle você realmente possui sobre o seu tempo? 

E como a organização em que você trabalha administra o tempo das pessoas?

Essa mudança parece pequena, mas transforma a discussão. Porque a gestão do tempo não deveria significar encontrar uma maneira de colocar cada vez mais coisas dentro das mesmas oito horas. Talvez uma boa gestão comece justamente quando conseguimos decidir o que não precisa ocupar esse tempo.



Perguntas frequentes:

O que é gestão do tempo no trabalho?

Gestão do tempo é a capacidade de organizar prioridades, atividades e períodos de concentração de maneira compatível com os objetivos profissionais. No ambiente de trabalho, porém, ela também é influenciada por fatores organizacionais, como reuniões, processos, liderança, autonomia e cultura.


Podem prejudicar quando são excessivas, desnecessárias ou fragmentam períodos importantes de concentração. O problema não é a existência de reuniões, mas a forma como elas são utilizadas e o espaço que ocupam na jornada.


Uma melhor organização do trabalho pode contribuir para reduzir alguns fatores de sobrecarga, mas burnout é um fenômeno complexo e não deve ser reduzido à capacidade individual de administrar a agenda. Condições de trabalho, demandas, recursos, autonomia, relações profissionais e cultura organizacional também precisam ser considerados.


Observe se existe autonomia real para definir prioridades e organizar sua agenda. Se mesmo com planejamento as demandas ultrapassam continuamente o tempo disponível, pode haver também um problema de carga de trabalho, processos ou organização.

Revisando reuniões, deixando prioridades claras, protegendo períodos de concentração, reduzindo urgências desnecessárias e criando um ambiente em que colaboradores consigam negociar demandas e limites com segurança.


O caso das reuniões fictícias é interessante justamente porque leva uma situação cotidiana ao limite. Quando alguém precisa criar um compromisso falso para encontrar espaço na agenda para realizar o próprio trabalho, não estamos falando apenas de produtividade. Estamos falando sobre cultura organizacional, liderança, gestão de pessoas, desenvolvimento profissional e saúde mental no trabalho.

E talvez uma das perguntas mais importantes para profissionais e organizações seja muito simples: estamos criando mais ferramentas para administrar o tempo ou melhores condições para que as pessoas consigam utilizá-lo?



Se você percebe que algumas questões têm se repetido, que o trabalho tem impactado seu bem-estar ou que sente dificuldade para compreender o que está vivendo, talvez este seja um bom momento para olhar para isso com mais atenção.


A psicoterapia e a mentoria de carreira podem ajudar nesse processo, oferecendo um espaço de escuta, reflexão e desenvolvimento, respeitando a sua história e o seu momento.


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saúde mental e equilíbrio emocional no trabalho Ana Carolina Pereira psicóloga em Curitiba

Sobre a autora:

Psicóloga (CRP 08/11420), Mentora de Carreira e Especialista em Desenvolvimento Profissional, integrando psicoterapia, coaching, e experiência em RH para apoiar decisões com clareza e propósito.



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